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A rainha, o amor e o medo além dos tempos de Antígona e Maquiavel

Gisele Vitória

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Apresentação: Uma fábula da atualidade, para começar...

Este trabalho busca entender as relações de poder conjugadas aos sentimentos de afeto e de temor presentes na peça de Sófocles, escrita por volta de 442 a.C., e no capítulo 17 do livro O príncipe, de Nicolau Maquiavel, redigido em 1513. Os mitos, as teses e os argumentos narrados nas duas obras foram aplicados na comparação com a crise do reinado de Elizabeth 2ª gerada pela conduta da rainha na morte de Diana, em 1997, segundo a versão do filme A rainha (2006), de Stephen Frears.

Visto por 2 bilhões de pessoas em 29 de abril de 2011, o casamento do príncipe William e da plebeia Kate Middleton, hoje duquesa de Cambridge, talvez nunca tivesse existido como símbolo de uma nova era ou com o significado que ganhou: uma celebração da monarquia britânica a um ano da comemoração dos 60 anos do reinado de Elizabeth 2ª. A suposição pode soar exagerada, mas talvez não existisse mais a monarquia como tal na Inglaterra dos tempos atuais.

Possivelmente a nação britânica tivesse hoje outra configuração de poder, não fosse uma rápida mudança de conduta da rainha em um conhecido episódio que chocou o povo inglês há quase duas décadas: o frio comportamento da família real diante da morte da princesa Diana, em 1997. Assim sugere o filme de Stephen Frears.

O longa-metragem, que deu a Helen Mirren o Oscar de melhor atriz em 2007, trata da reação da rainha à trágica morte de lady Di, em um controvertido e trágico acidente de carro em Paris em 31 de agosto de 1997. A ficção narra como a rainha, por suposta influência do então recém-empossado primeiro-ministro Tony Blair e por pressão popular e da imprensa, foi forçada a abandonar o seu estilo reservado e a aparente indiferença, com o objetivo de recobrar o respeito dos ingleses e, consequentemente, a sua popularidade. Elizabeth 2ª teria precisado lançar mão de um gesto de emoção: aparecer em público para se solidarizar com o luto popular e fazer um pronunciamento na TV para reconquistar a opinião pública britânica, indignada com sua frieza diante da tragédia. A monarca não teve escolha senão autorizar um grande funeral na Abadia de Westminster, em 6 de setembro de 1997, antecipado pelo cortejo fúnebre com o príncipe Charles e os filhos, William e Harry, com honras de rainha, para Diana – mãe do herdeiro do trono inglês, o segundo na linha de sucessão. Lady Di teve o funeral que tinha sido preparado para a rainha-mãe.

Proponho neste trabalho um exercício ficcional: comparar a crise do trono inglês, de 31 de agosto a 6 de setembro de 1997, a trechos da peça Antígona, de Sófocles. Proponho ainda lançar aqui um segundo nível de comparação: analisar o abalo sofrido pela monarquia inglesa em 1997 a partir dos erros de Creonte (o tirano rei de Tebas, em Antígona), e à luz do capítulo 17 da obra O príncipe, de Maquiavel (“Da crueldade e da piedade e se é melhor ser amado que temido ou melhor ser temido que amado”).

A ideia é entender como, após um erro de conduta política, a rainha Elizabeth 2ª soube escapar ao ódio do povo e contornar o que significou a maior crise recente do trono inglês.

 

Parte I: A noite em que a rainha Elizabeth 2ª sonhou com Creonte

Inventemos uma fábula: Duas noites depois da morte de Diana, em 31 de agosto de 1997, a rainha Elizabeth 2ª sonhou com Creonte, rei de Tebas. Na peça Antígona, de Sófocles, o tirano, que era irmão de Jocasta, proíbe o enterro de Polinice, filho de Édipo, e choca seu povo. A heroína Antígona, sobrinha do rei, desobedece a Creonte e enterra o irmão. Como punição, é aprisionada viva numa tumba e se enforca. O filho do rei, Hémon, tenta aconselhá-lo a voltar atrás na condenação, mas Creonte não lhe dá ouvidos.

Ao ser abandonado pelo filho – que era noivo de Antígona – e desestabilizado pela desaprovação popular, o rei tenta voltar atrás, mas é tarde demais. Creonte perde-se em seu poder e desespera-se assistindo ao filho, Hémon, e à mulher, Eurídice, matarem-se de desgosto e dor. A sociedade de Tebas, que aprova o ato de Antígona de enterrar o irmão e se comove com a tragédia da heroína, passa do temor ao ódio intolerável pelo monarca, que também decide morrer.

No sonho da rainha Elizabeth 2ª, Creonte vociferava no palácio de Buckingham: “A princesa Diana não será enterrada!”. A ordem do tirano de Tebas expõe, durante o pesadelo da rainha, um ato falho. Elizabeth 2ª não queria enterrar Diana com honras de monarca.

Para o povo inglês, contudo, não a sepultar como princesa, com todas as honras de Estado que ela merecia, significava o mesmo que não a enterrar. No filme de Frears, a primeira reação da avó do príncipe William, verbalizada educadamente à proposição de que Diana deveria ter um funeral de rainha, significou quase isso. Pela sua vontade, Diana não poderia ser enterrada como princesa. Nem receber homenagens como tal. Ela não era mais membro da família real. Ela perdera o título de “sua alteza real” desde a separação do príncipe Charles, em 1992, com o divórcio assinado em 1996. A princesa de Gales não poderia ter, pois, as honras de um funeral de Estado.

Elizabeth propôs um funeral íntimo, organizado pela família de Diana, os Spencer. A rainha estava decidida a manter a tradição. A ausência da bandeira hasteada no Palácio de Buckingham indicava que a monarca não estava em sua residência. Ela e a família real se isolaram em Balmoral, na Escócia, imaginando assim poupar da exposição os príncipes William e Harry, filhos de Diana e Charles. Mas a interpretação do país e do mundo foi outra. A família real fora acusada de desprezar Diana, e isso despertou a revolta dos britânicos.

Em Antígona, o ato de Creonte de proibir o sepultamento de Polinice fere a ética e a moral do povo grego, que tinha em seus costumes a devoção aos Deuses e o cumprimento do mandamento divino de que seus mortos deveriam ser tradicionalmente enterrados.

No filme A rainha, a relutância e a demora de Elizabeth 2ª para conferir a Diana as honras da princesa amada por seus súditos feriram a ética e a moral do povo britânico, que desejava chorar a morte da princesa de Gales, ex-mulher do príncipe Charles. Os ingleses queriam chorar a Princesa do Povo, termo cunhado pelo então primeiro-ministro Tony Blair. Como consequência da suposta indiferença, foi desencadeada uma onda de hostilidade contra a família real.

A perda de popularidade de Elizabeth 2ª para Diana já era notória havia anos. Em 1992, quando comemorou 40 anos de reinado, a rainha classificou aquele período de “Annus Horribilis”: as aventuras extraconjugais de Charles e Diana vieram à tona. Outros dois filhos se separaram. E, além de todas as trapalhadas da vida privada de seus membros, a realeza ainda não pagava impostos. Em 1997, abalado pela tragédia da morte da princesa, o contribuinte britânico dividia o desapontamento com uma família real pouco admirada com a irritação de pagar uma conta mensal equivalente a 10 milhões de reais para sustentar a mais cara monarquia da Europa.

De volta à fábula do sonho de Elizabeth 2ª:

O inconsciente da rainha da Inglaterra embaralhava imagens e a figura de Creonte se misturava a ela mesma. E Diana morta, à espera de um funeral a sua altura, não era apenas comparada ao cadáver do traidor Polinice, sem o merecimento de ser sepultado. Havia na figura de Diana uma semelhança com a própria heroína Antígona, filha de Édipo e Jocasta, e sobrinha de Creonte, que morava no palácio do rei antes da tragédia que a acometeu. (Era o mesmo rei que, sentindo-se desautorizado por sua desobediência, se transformaria em seu carrasco). A comparação entre Antígona e Diana pode fazer sentido? Talvez. Depois de viver a vida palaciana, Diana era aquela que, anos antes de sua morte, desafiara a realeza britânica. Não tinha mais medo de enfurecer sua majestade, a rainha. Não temia expor suas agruras, seus ressentimentos. Não se importava mais em desmoralizar Charles, o futuro rei da Inglaterra. Ela sabia de seu poder e não temia ser punida.

Assim como a morte de Antígona comoveu Tebas, a morte de Diana bateu fundo no coração dos ingleses. Assim como Tebas passou a odiar Creonte, o Reino Unido voltou-se contra a rainha e a odiou por sete dias.

A morte de Diana comovera o mundo, e especialmente os ingleses. Isso mudava tudo. A seguir, um trecho da reportagem da revista Veja, publicada em setembro de 1997[i], assinada por Vilma Gryzinski, sobre o impacto da tragédia para o povo inglês:

Diana foi amada, intensamente amada, na Inglaterra e no resto de um mundo carente de figuras notáveis. Em vida, sua graça, seu encanto, suas crises, suas fraquezas, seus dramas, seu toque humano e sua preocupação pelos desvalidos fizeram dela a mais querida das princesas, a mais famosa das mulheres. Morta, ela atingiu o ápice de um processo, deflagrado involuntariamente, de ousar mostrar seus sentimentos em público, e vergou as regras da monarquia. Quando sua ex-sogra, a rainha da Inglaterra, apareceu na televisão na sexta-feira, um dia antes do enterro, para fazer um pouco confortável discurso em homenagem àquela “pessoa excepcional”, ninguém teve dúvida. A princesa morta era mais poderosa do que a rainha viva.

 

Para recuperar a influência da monarquia no momento em que o povo vivia o luto e sentia-se insultado pela suposta frieza da família real, seria preciso que a rainha mostrasse sua face sensível. Só assim escaparia ao ódio. Assim teria aconselhado Tony Blair, segundo o filme A rainha.

 

Seria Tony Blair o Maquiavel dos nossos tempos?

A fábula do sonho da rainha Elizabeth prossegue, e o desenrolar dela inclui mais uma referência histórica:

Palavras de Nicolau Maquiavel, escritas em 1513 em O príncipe, também ressoavam no ouvido da monarca pouco depois de ela testemunhar os gritos de Creonte no palácio de Buckingham. A frase ecoou na mente da rainha: “Se não conquistar o amor, ao menos escape ao ódio. É possível ser temido e não ser odiado”. O conselho remete ao capítulo 17 do livro do filósofo italiano. O ponto em questão nas palavras de Maquiavel é a temperança e o equilíbrio entre ser amado e ser temido. Mas escapar ao ódio é determinante, como conselho derradeiro, para a manutenção do poder (entendendo ser este, em Maquiavel, o principal objetivo do monarca). Para contornar o ódio dos súditos, a rainha teria de usar sua virtù.[ii] A perda de popularidade nos últimos anos para Diana e a trágica morte da princesa de Gales significavam a fortuna[iii] no reino de Elizabeth.

No filme A rainha, o então primeiro-ministro trabalhista, Tony Blair, teria ocupado, no final das contas, um papel de conselheiro de Elizabeth 2ª ou, no mínimo, de um líder político dedicado a fazê-la enxergar que teria que voltar atrás em sua conduta para não pôr em risco o sistema de governo no país. Recém-empossado, Tony Blair definiu Diana como “A Princesa do Povo” e, em início de mandato, aumentou seu carisma ao corresponder ao sentimento da nação.

Segue outro trecho da mesma reportagem da revista Veja:

“As pessoas gostavam dela, amavam-na, consideravam que era alguém do povo”, resumiu o primeiro-ministro Tony Blair. “Ela era a princesa do povo, e é assim que permanecerá em nosso coração e na nossa lembrança para sempre.” A emoção era sincera, embora as palavras tenham sido atribuídas à excelência verbal de seu secretário de imprensa, Alastair Campbell. O que importa? O breve discurso de Blair resumiu o sentimento coletivo que se apossou da Inglaterra e se espraiou por outras plagas.

O longa-metragem de Stephen Frears detalha a queda de braço entre Blair e Elizabeth 2ª, que não conseguia enxergar o desejo de seus súditos em vê-la se envolver com o luto da nação. Ao mesmo tempo, o filme mostra como os tabloides britânicos a massacravam em progressão geométrica:

The Sun: “Mostrem que a Casa de Windsor tem coração”.

The Mirror: “Isso prova que a realeza não é como nós”.

Express: “Hora de mudar a guarda no Palácio”.

The Sun: “Onde está a rainha? Onde está sua bandeira?”.

Express: “Mostre que se importa”.

The Mail: “Deixe a bandeira a meio mastro”.

A pressão da imprensa refletia a indignação popular. A seguir, a reprodução de declarações de britânicos acampados na frente do palácio de Buckingham revelam a repulsa ao comportamento da família real, reexibidas pelo filme:

“Cometeram um grave erro. Eles deveriam ter vindo para o Palácio de Buckingham no domingo à tarde. Diana foi deixada sozinha e está tudo vazio”.

“É revoltante não terem aparecido ou dito uma palavra”.

“Não ter uma bandeira hasteada é uma vergonha para a família real”.

Até que chega o momento de a rainha perceber a crise. No filme, Blair lhe expõe dados de uma pesquisa de opinião. Num trecho do longa, ele a convence da seguinte forma: “Uma pesquisa sugere que 70% das pessoas creem que sua atitude prejudicou o sistema de governo. Uma em cada quatro pessoas é a favor da abolição da monarquia. Como seu primeiro-ministro, creio ser minha responsabilidade constitucional aconselhar as seguintes medidas”:

1. “Içar a bandeira do palácio de Buckingham a meio mastro e as de todas as residências reais” (nunca havia acontecido antes, em 400 anos).

2. “Deixar Balmoral e voltar para Londres”.

3. “Ir pessoalmente visitar o caixão de Diana”.

4. “Fazer uma declaração ao vivo pela TV para seus súditos e para o mundo”.

Prossigamos com a nossa fábula:

O sonho com Creonte impressionou a rainha. Ela sabia que ser comparada, ainda que pelo próprio inconsciente e à luz de uma autoanálise, ao monarca da obra de Sófocles era como atestar a ruína de seu reinado. Mais do que se equiparar a um tirano enlouquecido, era a constatação de que seguir com aquela conduta significava um tiro no pé: não dar ouvidos à fúria do povo, especialmente em uma democracia, era uma estratégia equivocada de manutenção de poder. As palavras de Maquiavel pronunciadas na sequência de seu sonho, logo após o momento em que o personagem de Sófocles urrava nos corredores do palácio de Buckingham, também a atormentavam.

Era como se algum tipo de voz da sabedoria a fizesse enxergar que era hora de recuar. Ainda que, em O príncipe, Maquiavel dedique seus conselhos aos novos reinos, a rainha Elizabeth (na época da morte de Diana ela tinha mais de 40 anos de reinado) teria ouvido as palavras do filósofo e aceitaria os conselhos de Tony Blair.

A rainha concordaria em acatar os conselhos, para que, “talvez”, isso evitasse o “desastre”. E assim teria sido feito. Um dia antes do funeral de Diana, o Times publicaria a manchete: “Palácio se curva diante de Blair”. Sim, houve tempo (menos de uma semana) para evitar o chamado “desastre” – e até uma possível queda da monarquia. Quando a rainha vai a público observar as flores deixadas em frente ao palácio de Buckingham, um comentarista da TV britânica observa que a última vez que Elizabeth 2ª chegara tão perto do público, descendo de seu carro, teria sido no fim da Segunda Guerra Mundial. A seguir, comentários ao recuo da rainha, exibidos no filme:

“É claro que a rainha mudou de ideia. Responde às necessidades de a família real estar engajada de alguma forma”.

“A agressividade talvez fosse o canal de que as pessoas enlutadas precisavam para direcionar a raiva a alguém. E o protocolo real pode ter sido um empecilho maior”.

“É realmente como se o povo e a família real, a monarquia, tivessem brigado esta semana e agora estivessem fazendo as pazes. Como uma briga em família”.

Em uma das cenas finais do longa-metragem, surge a figura de Tony Blair aliviado com a mudança de rota de Elizabeth 2ª. Ao final do discurso da rainha, transmitido pela televisão, o personagem de Blair comenta: “Isso é que é sobreviver”. Sob a ótica da manutenção do poder, a rainha soube sobreviver.

Em que medida essa história recente reproduz Creonte em Elizabeth 2ª e Maquiavel em Tony Blair? É preciso ressalvar: este exercício ficcional que entrelaça os tempos expõe éticas muito distintas. A ética grega era naturalista, aristocrática. Os gregos acreditavam que as pessoas ocupavam na sociedade os lugares reservados a elas. Portanto, era natural que o rei Creonte fosse temido. Ao escapar do ódio em 1997, Elizabeth se apoiou, entretanto, na alternativa de ser uma monarca amada. Entre ser temida e ser amada, ela optou por ser amada, ou, pelo menos, resgatar a empatia, o carisma, o amor de seu povo. Sob esse aspecto, ela não seguiu o conselho de Maquiavel descrito no capítulo 17 de O príncipe (“...se é melhor ser amado que temido...”).

Embora reforçasse a importância de escapar ao ódio, o florentino, que viveu a ética no século 16, aconselhava que o melhor era ser temido, mesmo que levemente. Maquiavel recomenda: “É melhor ser amado que temido ou o inverso? A resposta é que seria de desejar ambas as coisas, mas, como é difícil combiná-las, é muito mais seguro ser temido que amado, quando se tem de desistir de uma das duas”.[iv] O filósofo segue no conselho: “Os homens têm menos receio de ofender a quem se faz amar do que a quem se faz temer. Pois o amor é mantido por vínculo de obrigação, que por serem os homens maus, é rompido por toda ocasião que lhes seja útil, enquanto o temor é mantido pelo medo do castigo, que nunca te abandona”.[v]

Tony Blair, exercendo o papel do Maquiavel dos nossos tempos, teria regido a manutenção do poder da rainha como um maestro inclinado à sensibilidade da razão. Naquele momento, o respeito ao luto do povo pela morte de Diana pedia a flexibilidade dos protocolos.

Maquiavel diz que o monarca não tem de querer o amor do súdito. “É perfeitamente possível ser temido e não ser odiado ao mesmo tempo”, escreveu o filósofo em O príncipe.[vi] “Como os homens amam segundo sua vontade e temem segundo a vontade do príncipe, deve o príncipe sábio estabelecer seus fundamentos no que é seu, e não no que é dos outros, empenhando-se apenas em escapar ao ódio.”[vii] Mas o Maquiavel dos nossos tempos recomendaria naquele momento, pois, mais amor e menos medo para a manutenção do poder.

Parte 2: Se tivesse lido O príncipe, o que Creonte teria feito para não perder o poder?

Dois mil anos separam a peça de Sófocles do livro de Nicolau Maquiavel. Mais do que a distância entre os tempos, o mais difícil nesta comparação são as diferentes éticas nas civilizações. A noção de poder, o significado da morte, a religião, o nível de poder monárquico e, por que não dizer, o nível de tirania se distinguem nessa longa linha do tempo.

Caso se debruçasse sobre o capítulo 17 de O príncipe, Creonte saberia como manter o poder? Nele, Maquiavel é claro ao dizer que a resposta é combinar os dois sentimentos, mas, se difícil combiná-los, é mais seguro ser temido do que amado.

Creonte preferia ser temido. Não parecia preocupado em combinar em seu governo certos atos piedosos que pudessem torná-lo um pouquinho amado. Decerto sua opção de punir Polinice, o traidor, garantiria o exemplo para evitar novos traidores. Talvez esperasse que tal ato lhe rendesse aprovação dos mais nacionalistas.

O rei de Tebas, que na peça acabava de assumir o reino – e, portanto, era um príncipe novo –, grifaria possivelmente os seguintes tópicos do autor do século 16:

1. Amor é mantido por vínculo de obrigação. Pode ser rompido por ocasião que seja útil. Temor é mantido por medo do castigo, mais difícil de romper.

2. Os homens amam segundo sua vontade e temem segundo a vontade do príncipe. Estabelecer fundamentos no que é seu e não no que é dos outros. E escapar ao ódio.

3. Os homens têm menos medo de ofender a quem amam e mais medo de ofender a quem temem.

4. Um príncipe deverá, portanto, não se preocupar com a infâmia de cruel para manter seus súditos unidos e fiéis (...) ao príncipe novo é impossível escapar à fama de cruel.

Ao ser contrariado, Creonte puniu a heroína Antígona, sua sobrinha e filha de Édipo e Jocasta. Por amor ao irmão Polinice, morto e proibido de ser enterrado, Antígona despiu-se do medo, ousou desafiar Creonte em sua ordem e enterrou o corpo do irmão.

A punição à heroína, com tortura (presa dentro de uma caverna) e morte, ampliou a fama tirânica de Creonte, mas transformou o temor do povo em ódio ao rei, e provocou o suicídio do próprio filho, Hémon – que amava Antígona. A tragédia termina com sua consequente queda.

 

Hémon, filho de Creonte, no papel de Maquiavel

Mais um exercício hipotético: E se Hémon tivesse a equivalência de Maquiavel, como conselheiro de seu pai, Creonte? Ele teria tentado fazer o pai enxergar que não escaparia ao ódio intolerável do povo de Tebas. Com isso, colocaria em jogo seu poder se insistisse na pena de morte para Antígona, que tinha o apoio da população. Nesse diálogo entre filho e pai na tragédia de Sófocles que reproduzimos a seguir, fica claro nas frases de Hémon a defesa da temperança entre ser amado e ser temido para que se escape ao ódio dos governados, com o objetivo maior de manter o poder. Por mais que Maquiavel escolha o medo como opção mais segura ao monarca, ele ressalva a importância de se escapar ao ódio. Nesse ponto, Hémon poderia ser comparado ao autor e conselheiro florentino. Os argumentos lhe conferem até um ar republicano e democrático. No diálogo, as palavras de Creonte vão no sentido oposto. O rei de Tebas acredita na manutenção do poder por meio do medo e ignora a habilidade política para prevenir o ódio popular ao tirano:

Hémon: “Meu pai, eu te pertenço. E tua sabedoria desde cedo traçou para mim as regras que eu sigo sem hesitação. Nenhum noivado poderia ser mais importante do que te conservar como meu guia”.

Creonte: “Meu coração é grato por pensares assim. Para isso temos e criamos filhos (...) Não adianta ela apelar para as ligações de sangue e parentesco. Pois, se não consigo governar minha própria casa, como poderei manter minha autoridade na área mais ampla do Estado? (...) Só sabe comandar quem desde cedo aprende a obedecer. A pior peste que pode atacar uma cidade é a anarquia”.

Hémon: “Pai, a maior virtude do homem é o raciocínio. Não tenho a capacidade e muito menos a audácia – para duvidar da sensatez do que disseste. Contudo posso admitir que haja outra opinião igualmente sensata. Espero que não te ofendas se te contar que procuro, para minha própria informação, e para a tua, ouvir o que se fala contra o trono”.

Creonte: “Achas que devo governar com a opinião alheia?”.

Hémon: “Nenhum Estado pertence a um homem só”.

Creonte: “A cidade então não é de quem governa?”.

Hémon: “Pensando assim serias um bom governador, mas de um deserto. (...) Mais do que como teu filho, falo pela verdade. Repito: toda a cidade aprova a ação de Antígona, mesmo os que condenam Polinice”.

Creonte: “Não basta destruir o traidor. É preciso que seja exposto à execração para que fique o princípio: Os que se deixam corromper são abatidos. Se a minha mão tremer, estou perdido. Se a minha voz hesitar, cairão sobre mim. E tu (...) pedes que eu escute a voz do povo. Essa voz que gagueja frases sem sentido. Para fertilizar o solo é necessário força. Não se pergunta ao solo se deseja a lâmina do arado”.

Hémon: “Uma ordem generosa produz muito mais frutos. Para os que governam, saber esquecer é salutar. (...) A morte dela [Antígona] não matará só a ela”.[viii]

Se Creonte tivesse lido as palavras de Maquiavel, teria ele agido diferente e, assim, preservado seu poder em Tebas? O que dera errado ali? Creonte não teria considerado a força fraterna do amor de Antígona pelo irmão (no sentido do latim dilectio – querer bem) como um sentimento genuíno e poderoso para fortalecer e capacitar alguém a enfrentar o medo? O rei superestimou o valor de ser temido e não se deu conta de que seu abuso de poder levaria o povo ao ódio? Creonte ignorou a importância de ser amado pelo povo, ou ao menos respeitado por certo senso de piedade? Teria ele ignorado a temperança de seus gestos para manter o reino unido a seu favor e manter seu poder?

Ou, pensando por outro ângulo: Creonte se julgaria tão amado por seu povo que isso lhe conferiria um poder de pai severo a ponto de exercer sua tirania ilimitadamente?

Para balizar a avaliação de Maquiavel nos atos de Creonte, reproduzimos os seguintes trechos da obra apresentada pelo filósofo florentino em 1513 ao monarca Lorenzo de Médici:

1. “O príncipe deve crer e agir com gravidade. Não ter medo de si mesmo e, temperando prudência e humanidade, proceder de modo que a excessiva confiança não o torne incauto, nem a exagerada desconfiança o torne intolerável”.[ix]

2. “Quando, porém, o príncipe está com os exércitos conduzindo uma multidão de soldados, não tem absolutamente necessidade de se preocupar com a fama de cruel, porque, sem essa fama, jamais se mantém um exército unido e disposto à ação”.[x]

3. “Deve, contudo, o príncipe fazer-se temer, de modo que, se não conquistar o amor, que pelo menos escape ao ódio, pois é perfeitamente possível ser temido e não ser odiado”.[xi]

Que opções teria o rei Creonte, se seguisse os conselhos descritos em O príncipe?

 

Do ato de proibir o enterro de Polinice

Creonte acabava de tomar o poder, após a morte dos irmãos Etéocles e Polinice. A guerra começara quando Etéocles recusara-se a cumprir o acordo de alternar o reinado de Tebas com Polinice. Polinice vivia em Argos, casado com a filha do rei Afratos. Ambos morreram e Creonte, que assumiu o poder, enterrou Etéocles com honras de herói e deixou o corpo de Polinice exposto aos abutres.

Como um novo rei, Creonte seria coerente em fazer-se temer, segundo recomenda Maquiavel. É possível que o autor de O príncipe tivesse repelido o ato do tirano de impedir o sepultamento de um dos filhos de Édipo, ainda que fosse considerado traidor da pátria. Os costumes gregos, valorizados pela “vontade dos deuses”, foram ignorados. [xii]

Era o momento de unir prudência e humanidade para não provocar o ódio. Lembremos: “É possível ser temido e não ser odiado”, escreveu Maquiavel. Em sua análise da tragédia grega, o psicanalista francês Jacques Lacan observa em seu Livro 7: A ética da psicanálise,        da obra O seminário: “Goethe mostra que Creonte, impelido por seu desejo, manifestadamente sai do seu caminho e procura romper a barreira, visando a seu inimigo Polinice para além dos limites em que lhe é permitido atingi-lo – ele quer precisamente golpeá-lo com essa segunda morte que ele não tem direito algum de infringir-lhe”.[xiii]

 

Do ato de castigar a desobediência de Antígona com a morte

Pela ética dos tiranos gregos, Creonte agiu como seus pares, sem surpresas. Jamais voltaria atrás. Se tivesse seguido os conselhos de O príncipe, é possível que Creonte ouvisse o filho, Hémon, e atentasse para a informação de que o povo aprovava a ação de Antígona, mesmo aqueles que consideravam Polinice um traidor. Entretanto, pelo simples fato de ser um novo príncipe, o risco de não punir Antígona poderia desestabilizá-lo no poder. Era uma circunstância delicada. Contudo, o mais sensato teria sido Creonte ouvir o filho.

Na tentativa de escapar ao ódio intolerável, o rei temido poderia ter oferecido clemência à sobrinha Antígona, sob alegação de que era irmã do traidor, e encerrar o caso. Maquiavel o teria aconselhado assim? Escreveu ele: “É perfeitamente possível ser temido e não ser odiado ao mesmo tempo, o que conseguirá sempre que se abstiver de se apoderar dos bens e das mulheres de seus cidadãos e seus súditos. Se precisar proceder contra o sangue de alguém, deverá fazê-lo quando houver justificativa conveniente e causa manifesta”.[xiv]

Creonte demorou para perceber os erros. Faltou nele o conceito de prudência: ser capaz de enxergar quando usar a cautela e quando usar a audácia, ou uma postura mais flexível, como prevê o líder que tem sabedoria. No papel de Creonte, não há espaço para a flexibilização. Assim como não houve, na trajetória de Hitler, a capacidade de ser maleável.

É preciso lembrar que Creonte vivia no contexto da insegurança. Tebas estava em guerra, como ressalva o próprio rei no trecho a seguir:

Coro: “Ela [Antígona] tinha o direito de tratar como tratou Polinice. Era irmão dela”.

Creonte: “O chefe de Estado tinha todo o direito de tratar como tratou o traidor”.

Coro: “O direito de respeitar os mortos é mais sagrado”.

Creonte: “A guerra criou um direito novo”.[xv]

Diante de sua condenação irreversível e prestes a ser levada para a tumba, Antígona lembrou Creonte de que, além de Polinice, os soldados de Tebas mortos na guerra estavam sem funeral: “Tu, Creonte, e todos os que te apoiam contra mim verão o meu cadáver e o de meu irmão se multiplicarem por milhares nessa guerra sem fim. (...) Já me chegou aos ouvidos que os campos estão cheios de cadáveres nossos, que como Polinice não recebem nem sagração nem sepultura. E agora não é por determinação, mas por incapacidade tua”.[xvi]

No final da peça, o rei tirano derrotado, reconhece a má estratégia:

Creonte: “Não temos mais comando nem vontade. Não sei para onde olhar nem onde buscar apoio. Levem-me daqui. Para onde eu possa morrer exposto ao tempo, a fim de que meu corpo desonrado acalme, enfim, a ira dos deuses e aplaque a fúria do exército inimigo. Para que Tebas não morra comigo”.

Coro: “A vida é curta e um erro traz um erro. Desafiado o destino, depois tudo é destino. Só há felicidade com sabedoria, mas a sabedoria se aprende é no infortúnio. Ao fim da vida os orgulhosos tremem e aprendem também a humildade. Já tarde Creonte se oferece em holocausto. Tebas morre com ele. O inimigo avança”.[xvii]

 

O amor nos tempos de Antígona

Identifiquemos o amor em Antígona, de Sófocles, em alguns momentos: o amor da heroína pelo irmão morto e sem o merecimento do sepultamento; o amor motivando a sua coragem de enfrentar a tirania de rei Creonte; o amor de Antígona se manifesta ainda no respeito pelos costumes de um povo regido pela crença de que seus mortos devem ser enterrados; existe amor na crença nos deuses; há amor nos argumentos do príncipe Hémon para demover o pai tirano da decisão de condenar Antígona à morte; há amor (pela noiva), oculto em seu discurso político-estratégico de que aquela decisão do pai (condená- la à morte) era um erro, uma vez que se viraria contra ele, o rei.

E, mais do que uma tentativa de salvar a mulher amada, os argumentos de Hémon também manifestavam o afeto pelo pai. Creonte não enxergava o erro de estratégia. O governante era incapaz de notar que os costumes e o senso moral de seu povo eram mais fortes do que suas demonstrações de poder por meio do medo; por fim, identifiquemos o amor-próprio de Antígona, na maneira como a heroína foi até o fim na defesa de seus princípios. Mas não havia amor em Creonte. O desejo de ser amado como monarca não parecia uma preocupação para o rei de Tebas.

 

O medo nos tempos de Antígona

À exceção da heroína Antígona e do príncipe Hémon, o medo é uma constante na peça: o medo de Ismene, irmã de Antígona, em se comprometer. O medo do soldado que avisa a Creonte que alguém lhe desobedeceu. “O mais apavorado é o que semeia o medo. A violência é mãe da violência”,[xviii] diz Antígona a Creonte, talvez o mais amedrontado de todos os personagens. O medo de Creonte é o medo do novo governante de não ser respeitado pelos súditos. A estratégia de atacar antes de ser atacado é a estratégia do covarde.

 

O amor e o medo nos tempos de Maquiavel

No capítulo 17 de O príncipe, Maquiavel argumenta que os homens têm menos medo de ofender aqueles que amam do que aqueles que temem. O amor seria mantido pelo vínculo da obrigação, da gratidão, o que pode ser rompido de acordo com os interesses em jogo.

Ou seja, o amor pode ser abandonado. O temor se perpetua pelo medo do castigo, que nunca abandona os seres humanos. Entre a ética dos princípios e a ética de resultados, Maquiavel fica com a segunda, que é a dos homens públicos e políticos.

 

O amor que reprime versus o medo que emancipa

A defesa do temor nas relações entre o novo monarca e seus súditos teria lá a sua verve republicana em Maquiavel. A ideia de que o governante deveria ser amado era comum entre os séculos 15 e 16.

Isso se apoiava na noção de que os súditos seriam eternos imaturos e que o rei é aquele que detém o saber, mesmo na hora de punir. O castigo, em tese, seria sempre para o bem. A passividade dos súditos, ancorada no amor filial ao rei, perpetuaria a infantilização da sociedade. Maquiavel sustenta que o monarca não deve desejar o amor do súdito. Aí se nutre uma raiz democrática. O temor leve pode significar emancipação porque liberta o povo da infantilização e da obrigação de amar. Esse raciocínio retira do monarca seu sentido de reinar por amor filial. Esse tipo de amor é repressivo[xix] e tende ao autoritarismo.

 

Sobre o amor, no sentido do latim dilectio

Neste trabalho, limitamos as definições de amor ao latim dilectio: o amor com componente não carnal. É o querer bem à pessoa amada, sem o sentido sexual. Diferentemente do latim amor, segundo o dicionário Aurélio: “Sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem; sentimento de dedicação absoluta de um ser a outro, ou a uma coisa. 3. Inclinação ditada por laços de família. 4. Inclinação sexual forte por outra pessoa. 5. Afeição, amizade, simpatia. 6. Objeto de amor.”

Embora se dedique a pormenorizar os sentimentos que compõem o amor-paixão, o livro Do amor, de Stendhal, publicado em 1822,[xx] traz um interessante trilho para a cristalização do sentimento mais desejado pela humanidade. Dele fazem parte admiração, confiança e esperança. Se tentássemos dissecar esses mesmos componentes na formação do amor com o sentido dilectio, possivelmente eles também estariam na sua gênese. Na relação com os governantes, os governados criam vínculos muitas vezes intransferíveis de admiração, confiança e esperança. E, por meio dessa base, o governante também espera ser legitimado.

 

 

Comentários de Lacan sobre Antígona

Em O Seminário, obra escrita em 1960, Jacques Lacan dedica três capítulos de seu Livro 7: A ética da psicanálise, a Antígona (“O Brilho de Antígona, capítulo 19”; “As Articulações da Peça”, capítulo 20; e “Antígona no Entre-duas-mortes”, capítulo 21). O interessante na análise do psicanalista e teórico francês é que ele contextualiza a condição de Antígona para seguir corajosamente na manutenção de seus princípios, sem medo de se jogar para a morte. Antígona sabia que o risco de morrer era muito maior do que o de ser perdoada. Mas não teve medo. Para Lacan, a herdeira da maldição de Édipo e Jocasta não aguentava mais viver. “Sua vida não vale a pena ser vivida. Ela vive na memória do drama intolerável daquele a partir do qual surgiu sua linhagem que acaba de se aniquilar sob a figura de seus dois irmãos.

Ela vive no lar de Creonte, submetida a sua lei, e é isso que ela não pode suportar.”[xxi] Diante disso, Antígona estava disposta a cumprir a sua ate – o limite que a vida humana pode transpor. Ela quer romper com os limites.

Na análise do comportamento de Creonte, Lacan menciona o diálogo entre o monarca e Hémon, reproduzido acima, no início da parte 2 deste trabalho:

1. “Chega Hémon, filho de Creonte e noivo de Antígona, que se põe a dialogar com o pai. A única confrontação do pai com o filho faz aparecer a dimensão que comecei a lhes adiantar no que concerne às relações do homem com seu bem – uma flexão, uma oscilação. Esse ponto é extremamente importante para fixar a estatura de Creonte. Veremos em seguida o que ele é, ou seja, o que sempre são os carrascos e os tiranos – afinal de contas, personagens humanos. Só os mártires são sem piedade e sem temor. Creiam-me, no dia do triunfo dos mártires haverá o incêndio universal. A peça é feita justamente para nos demonstrar isso”.[xxii]

2. “Creonte não perdeu a pose, longe disso, e deixa seu filho partir com as piores ameaças. O que estoura nesse momento novamente? O coro, e para dizer o quê? ‘Eros anikate Makham’: amor invencível ao combate. (...) Isso estoura no momento em que Creonte decreta o suplício ao qual Antígona será destinada – ela vai entrar viva numa tumba”.[xxiii]

3. “Após haver bradado que jamais cederia em nada de suas posições de responsável, Creonte, quando papai Tirésias lhe deu bastante bronca, começa a ter medo. Ele diz então ao coro: ‘É preciso que eu ceda?’”.[xxiv]

 

De volta à rainha Elizabeth 2ª

Voltar atrás teria sido crucial para a rainha Elizabeth 2ª recuperar o prestígio com os ingleses em 1997, após a morte de Diana. Mas, por sorte, ela teria recuado a tempo. Creonte demorou demais para voltar atrás? A certa altura, voltar atrás já não era mais possível. Fazer este movimento no último momento configurou o erro maior de Creonte, na visão do psicanalista Jacques Lacan. Diz Lacan:

Aparece Tirésias, o cego. O que ele formula não é apenas o anúncio do futuro, pois o próprio desvelamento de sua profecia desempenha um papel no advento do futuro. Ele retém o que deve dizer em seu diálogo com Creonte até que este, em seu pensamento formado pelo personagem para quem tudo é questão de política, isto é, de lucro, comete a imprudência de dizer-lhe várias coisas injuriosas para que o outro desencadeie enfim sua profecia. O valor conferido às palavras do inspirado é, como em toda dimensão tradicional, bastante decisivo para que Creonte perca sua resistência e se resigne a voltar atrás em suas ordens, o que será uma catástrofe.[xxv]

 

Parte 3: Para terminar, uma fábula do futuro reino de William e Kate nos tempos da razão sensível...

O casamento do príncipe William com a duquesa de Cambridge, Kate Middleton, cumpriu o papel de cristalizar os novos tempos de harmonia e estabilidade da monarquia britânica com seu povo. A celebração do amor verdadeiro do herdeiro de Diana e de uma mulher do povo era o trunfo que o reinado de Elizabeth 2ª guardava para comemorar em paz seus 60 anos de coroa. A cerimônia que parou o mundo também encerrou 20 anos de crise da monarquia inglesa, assolada por escândalos. Os 60 anos da soberana como chefe de Estado foram comemorados formalmente no dia 5 de junho de 2012, com um serviço religioso e um desfile de carruagens. Um grande concerto na frente do palácio de Buckingham fez parte dos eventos programados para comemorar o jubileu de diamante do reinado de Elizabeth 2ª. Coroada em 2 de junho de 1952, Elizabeth caminha para superar o recorde de sua tataravó, a Rainha Vitória, que reinou por 63 anos e sete meses.

Se os prognósticos virarem realidade, o príncipe Charles deverá renunciar ao trono na linha sucessória, e a rainha passará o cetro para o neto William. Pelo menos, é o que deseja o povo britânico. William e Kate terão o desafio de perpetuar a nova fase da monarquia britânica no século 21. Autor do livro Elogio à razão sensível, o sociólogo Michel Maffesoli, professor na Universidade de Sorbonne, sugere que o mundo contemporâneo seja interpretado com base na “razão sensível”.[xxvi]

Ao longo da história da humanidade, a sensibilidade foi separada da razão, que viveu séculos soberanamente asséptica. No século 21, a lógica com subjetividade será mais conveniente aos líderes do que a lógica explicada com frieza e números. Nos tempos da razão sensível, um líder comanda operações militares, mas desce do avião presidencial segurando a mão da filha, como pratica Barack Obama, por exemplo.

William e Kate serão novos monarcas, mas herdeiros de um reino estabelecido. Hoje, a manutenção da monarquia britânica como sistema de governo depende pouco do conceito de “temor leve” que um monarca deve despertar, como fora defendido por Nicolau Maquiavel em O príncipe. O que sustenta a monarquia inglesa hoje e no futuro é o carisma e a empatia dos monarcas perante a sociedade. Imaginemos que o amor coletivo do povo britânico pela figura da princesa Diana já se transferiu naturalmente para o seu filho William, que um dia será rei. Os escândalos de 20 anos atrás deram lugar a um perfil jovial e moderno de um casal que se uniu por amor e não por conveniência a exemplo do casamento igualmente midiático de Charles e Diana.[xxvii]

Pouco se sabe, além de seu luminoso sorriso, sobre o preparo do príncipe William para reinar, defender interesses do trono britânico, ou aconselhar o Parlamento quando eventualmente a Casa estiver em crise. O príncipe amado, portanto, tem muitas chances de tornar-se um rei amado. Na esfera da monarquia parlamentarista, corre-se pouco risco de o sentimento de amor (dilectio) dos súditos pelo monarca se tornar repressivo ou pouco emancipatório. Se levado à risca, os conselhos “maquiavélicos” de Tony Blair à rainha Elizabeth em 1997 foram na direção de reconquistar o amor e o respeito do povo.

O papel do monarca do Reino Unido é constitucional, e restrito a funções não partidárias, como a outorga de honrarias. Mas a autoridade executiva máxima do governo do Reino Unido é ainda prerrogativa do monarca. Isso inclui a dissolução do Parlamento, a elaboração de normas para o governo e a regulamentação do funcionalismo público e das Forças Armadas. Mas tudo é feito de acordo com as políticas estabelecidas e pelas leis aprovadas no Parlamento. A rainha Elizabeth 2ª possui residências reais oficiais e privadas, com ativos no valor superior a 7 bilhões de libras esterlinas. A monarquia britânica é um dos maiores proprietários do mundo.

Seguindo o exercício ficcional proposto, se Nicolau Maquiavel pudesse presentear o príncipe William com seu livro mais famoso e controvertido no dia em que ele assumir o trono inglês, o conselho do filósofo florentino defendido no capítulo 17 de O príncipe mereceria uma revisão radical. Entre ser amado e temido nos tempos da razão sensível, que o príncipe prefira ser amado. Assim como Maquiavel, em sua época, aconselhava ao governante a preferência pelo temor leve na relação com seus governados, qualifiquemos de “amor leve” o vínculo ideal para o príncipe do século 21 com uma sociedade que não é mais súdita. O “amor leve” seria o amor que não é cego, que não aprisiona nem reprime. E talvez assim dissesse o nosso Maquiavel moderno: que a razão sensível estabeleça, com esses laços afetivos, um vínculo de confiança e diálogo dos príncipes do futuro com as sociedades emancipadas.

 

Gisele Vitória é, desde 2007, diretora de núcleo das revistas IstoÉ Gente, Menu e IstoÉ Platinum, publicadas pela Editora Três. Acumula a direção de redação da revista IstoÉ Gente e é também colunista da revista IstoÉ, para a qual cobre entretenimento, além de personagens da moda, da política, do esporte e dos negócios. Também trabalhou no Jornal do Brasil, no jornal O Globo e na Rádio Globo.


 

Referências bibliográficas

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio da Língua

Portuguesa. Curitiba: Positivo, 5ª edição, 2012.

GRYZINSKI, Vilma. “Nos braços do povo”, in Veja. São Paulo: Abril, ed.

nº.1512, 10/09/1997, pp.34-35.

JANINE RIBEIRO, Renato. “A realeza mais perto do real”, in Valor

Econômico, 29/04/2011.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 7: A ética da psicanálise. Rio de

Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.

MAFFESOLI, Michel. Elogio da razão sensível. Petrópolis: Vozes, 1998.

MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: WMF Martins Fontes, 4ª edição,

2010.

SÓFOCLES. Antígona. São Paulo: Paz e Terra, 7ª edição, 2007.

STENDHAL. Do amor. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

Referências online

GRYZINSKI, Vilma. “Nos braços do povo”. Disponível em http://veja.abril.

com.br/acervodigital/. Consulta em 22/06/2015.

JANINE RIBEIRO, Renato. “A realeza mais perto do real”. Disponível

em: http://www.valor.com.br/arquivo/884867/realeza-mais-perto-do-real.

Consulta em 22/06/2015.

Filme

FREARS, Stephen. A rainha. Produção: Granada e Pathê Productions. DVD,

1h39m, color. Título original: The Queen, 2006.

 


[i] Vilma Gryzinski, “Nos braços do povo”. Revista Veja, São Paulo: Abril,

ed. nº 1512, 10 set.1997, pp. 34-35.

[ii] Nicolau Maquiavel, O príncipe. São Paulo: WMF Martins Fontes, 4ª edição,

2010, pp. 196-197. “Segundo Skinner, em Maquiavel há uma negação

do sentido de virtù na tradição humanista, na qual ela é a qualidade

que capacita o príncipe a realizar seus mais nobres fins, e a posse

da virtù é identificada com a posse do conjunto das principais virtudes.

Maquiavel teria criado um conceito original: virtù seria todo

o conjunto de qualidades, sejam elas quais forem, cuja aquisição o

príncipe possa achar necessária a fim de ‘manter seu estado’ e realizar

‘grandes feitos’.”

[iii] Ibidem, pp. 187-188. “A fortuna pode ser entendida, em primeiro lugar,

como o fluxo dos acontecimentos, entendido como o que perturba as

ações e impede o cálculo. É recorrente, em Maquiavel, a utilização de

fortuna como contraponto às ações políticas, personificando as alterações

no rumo dos acontecimentos. A fortuna é uma força destruidora das

construções humanas. Para Maquiavel, é possível opor-se a essa destruição

causada pelas alterações das circunstâncias por meio da ação preventiva,

que levanta barreiras a ela: a ação da virtù. Isso leva a que

a fortuna só possa ser compreendida em conjunto com a virtù. A fortuna

se manifesta pela ausência de virtù.”

[iv] Ibidem, p. 82.

[v] Idem.

[vi] Ibidem, p. 83.

[vii] Ibidem, p. 84.

[viii] Sófocles, Antígona. São Paulo: Paz e Terra, 7ª edição, 2007, pp. 36-42.

[ix] Maquiavel, op. cit., p. 82.

[x] Ibidem, p. 83.

[xi] Idem.

[xii] Jacques Lacan, O seminário, livro 7: A ética da psicanálise A essência

da tragédia: um comentário de Antígona de Sófocles. Rio de Janeiro:

Jorge Zahar Editor, 2008, p. 329. “O fato de que foi o homem quem inventou

a sepultura é discretamente evocado de passagem. Não se trata

de acabar com quem é homem como se faz com um cão. Não se pode acabar

com seus restos esquecendo que o registro do ser daquele que pôde ser

situado por um nome deve ser preservado pelo ato dos funerais. (...)

Por ele [Polinice] ser entregue aos cães e pássaros, e ir terminar seu

aparecimento na terra na impureza, seus membros dispersos ofendendo a

terra e o céu, vê-se bem que Antígona representa por sua posição esse

limite radical que, para além de os conteúdos, de tudo o que Polinice

pôde fazer de bem e de mal, de tudo o que lhe pode ser infligido, mantém

o valor de seu ser.”

[xiii] Ibidem, p. 302.

[xiv] Nicolau Maquiavel, op. cit., p. 83.

[xv] Sófocles, op. cit., p. 58.

[xvi] Ibidem, pp. 49-50.

[xvii] Ibidem, p. 67.

[xviii] Ibidem, p. 29.

[xix] Conceito trabalhado em aula ministrada por Renato Janine Ribeiro durante

o curso de Ética na Imprensa, na pós-graduação em Jornalismo com

Ênfase em Direção Editorial, ESPM, 2011.

[xx] Stendhal, Do amor. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 6.

[xxi] Jacques Lacan, op. cit., p. 311.

[xxii] Ibidem, p. 316.

[xxiii] Idem.

[xxiv] Ibidem, p. 314.

[xxv] Ibidem, p. 317.

[xxvi] Michel Maffesoli, Elogio da razão sensível. Petrópolis: Vozes, 1998,

p. 28. “Esse equilíbrio [entre o intelecto e o afeto] se encontra, e é

vivido enquanto tal, no senso comum, que foi tão estigmatizado durante

toda a modernidade; está igualmente presente no pensamento orgânico

das sociedades tradicionais; por fim, é um elemento incontornável

da socialidade pós-moderna. Em particular nas jovens gerações que, empiricamente,

vivem uma inegável sinergia entre a razão e os sentidos.

Por conseguinte, aquele que deseja dar conta da sensibilidade social

que emerge em nossos dias estaria bem inspirado se integrasse uma tal

globalidade em sua análise.”

[xxvii] Renato Janine Ribeiro, “A realeza mais perto do real”, in Valor

Econômico, 29/04/2011. Disponível em http://www.valor.com.br/arquivo/

884867/realeza-mais-perto-do-real. Consulta em 22/06/2015. “A esperança

está na nova geração. É verdade que o príncipe Charles, que se

tornara impopular depois que sua mulher, Diana, disse que o casamento

deles era a bit crowded (que havia uma multidão na relação, em alusão

ao amor dele por Camila Parker-Bowles), recuperou o respeito nos últimos

anos. Mas, sobretudo, muito se espera do príncipe William. Ele é

filho de Diana, que foi uma mãe amorosa e parece tê-lo formado num molde

mais moderno. Antes de se casar, William vivia com a namorada havia

anos, de modo que desapareceu a mística da virgindade da noiva. Parece

que a ideia de uma família real moralista e casta – que seu pai e tios

não conseguiram sustentar, porque se tornou deslocada em nosso mundo

– está dando lugar à de um casal que se conhece e se ama. E ele pode

ser o próximo rei. Elizabeth 2ª, se for longeva como a mãe, poderá sobreviver

ao filho – ou Charles poderá herdar o trono, mas por poucos

anos. O casamento que agora é celebrado pode ser tão midiático quanto

o de Charles e Diana, mas se faz em bases novas e mais sólidas, para

os noivos e para a instituição monárquica.”