O amante inventado

Dorothee Rüdiger

A história que vou contar seria cinematográfica, não fosse verídica.  Foi narrada por uma mulher madura que se aventurou a entrar em um mundo, no qual o faz de conta é a regra a seguir: o mundo dos amores on-line. Seu filme poderia chamar-se  “Ligações perigosas”, tal como o romance escrito por Pierre Chaderlos de Laclos no século XVIII e recontada no cinema, em 1988 num filme digno de vários “Oscars”, não se passasse  no século XXI, época na qual os amores são mais inspirados em histórias que envolvem a inteligência artificial, tal como no filme “Ela" ou ainda no episódio “Realidade artificial” da série TerraDois da TV Cultura, não fossem, ainda, os personagens envolvidos dessa história pessoas de carne e osso.  

Cansada das desventuras amorosas do mundo banal do dia-a-dia, ela queria mais emoção do que “tomar um café” com algum  colega.  Alguns, embora fossem  candidatos a namorados, sufocavam o clima romântico que poderia brotar durante o cafezinho com suas queixas sobre o mundo e a “ex”. Mais que uma paixão, queriam, no fundo, seu ouvido emprestado para falar. E só. 

Como a vida sem uma paixão tinha se tornado para ela um quadro em preto e branco e sem direito aos cinquenta tons de cinza, resolveu superar o preconceito e cadastrar seu perfil num site de relacionamentos. Se esses sites há poucos anos atrás eram considerados a última esperança de quem estava se sentindo jogada pelos cantos, hoje em dia são populares para um sem número de pessoas que se cadastram quando bate a vontade de encontrar um par. 

Ficou surpresa com a multidão de pessoas maduras à procura de um novo amor depois de tantos encontros e desencontros amorosos na vida.  Querem viver a juventude aos 50, 60, 70 anos com direito a esportes radicais e viagens em volta do mundo, amor e sexo. São solteiros, cansados da solteirice, divorciados com filhos adultos, viúvos ou até casados à procura de uma um triângulo amoroso e mais frisson na vida.  Paqueram, dão cantadas, querem se apaixonar.

Entrando nessa baile de máscaras cheio de perfis atraentes dos que viveram os anos de rebeldia na juventude e que não se conformam com os clichês que acompanham  a chamada  “terceira  idade “, não demorou para que ela recebesse uma série de  cantadas, às vezes toscas, outras vezes elegantes. 

Assim, conheceu um  “cinquentão”  bonito, amável, cavalheiro.  Ele queria saber da vida dela: de seus sabores, seus dissabores, de suas alegrias e de suas tristezas.  A  entendia, sempre.  Sabia que uma mulher gosta de rir e mostrava um incrível senso de humor. Tédio? Nunca mais! Dia-a-dia em preto e branco? Sua vida enchia-se de cores na medida em que recebia mensagens apaixonadas.  Deu “química”. “As pessoas se apaixonam, quando se sentem entendidas,” comenta Jorge Forbes no episódio “Realidade artificial” da série TerraDois, na qual um homem, tal como no filme  “Ela “,  se apaixona pelo software de um computador com a voz sexy de uma mulher.

On-line com seu namorado do outro lado da linha, experimentou o que Sigmund Freud diz da fuga romântica para escapar do mal-estar da civilização. Inventou, a partir dos bilhetinhos elegantes um amante. Por algum tempo, deixou de lado qualquer dissabor e buscou a felicidade fora desse mundo.

A história durou. Até que um dia descobriu, que a pessoa com a qual era ligada pela rede social tinha montado uma cena romântica por um motivo banal:  conseguir dinheiro. Era um dentre centenas de milhares de scammers que, no mundo criado pelas redes sociais vivem da remessa de dinheiro dos apaixonados. Percebendo o enredo do qual fazia parte,  a mulher resolveu escrever uma carta de despedida: agradeceu pela atenção e pelos momentos que ele lhe tinha proporcionado. O  mandou se cuidar e o bloqueou. Afinal tinha sido ela quem deixou essa história ir tão longe. Ele, o amante inventado, tinha mobilizado nela exatamente aquilo que ela queria: emoções românticas a colorir sua vida tediosa, emoções que, ao contrário do que poderia pensar o scammer, não têm preço.  

Ridícula como qualquer pessoa que se rende a uma carta de amor, deixou-se invadir  como Madame de Tourvel pelas investidas românticas do Visconde de Valmont na história contada por Pierre Chaderlos de Laclos no século XVIII  em “Ligações perigosas”. E à semelhança do que acontece no filme hollywoodiano de 1988, o autor dos bilhetes elegantes, que cruzavam durante algumas semanas o espaço cibernético, tentou procurá-la desesperadamente pelas redes sociais. À diferença do jogo montado por Valmont, porém, quem se deixava levar pelo imaginário da cena não era uma mulher do século  XVIII. Era uma mulher do século XXI. Paciente de psicanálise há  muitos  anos, tinha conseguido  detectar em tempo a  cena montada. Desmascarou seu par e deixou o palco.

Será que o romantismo em tempos de encontros amorosos  on-line está fora de moda? No filme “Ela”, o protagonista Theodore encontra na voz feminina de um computador sua cara metade. Não suporta os desencontros amorosos com sua esposa. Pede o divórcio e inventa uma mulher para si. Provavelmente, a ficção fez tanto sucesso, porque, como diz Jacques Lacan, “amo em ti mais do que tu”, ou busco no outro a completude que não encontro em mim. Só que a perfeição é uma cilada, como descobre também o casal  no episódio “Realidade artificial” da série TerraDois.

A questão não é como inventar um amante. É como inventar um amor. É  como suportar o encontro não no face, mas  no face- to- face,  no cara-a-cara. Por onde começar? Por um café, uma balada, uma corrida no parque ou, por que não, um chat on-line? Qualquer lugar serve de ponto de partida para se inventar um amor. O que interessa é chegar à cena desse mundo bem material que abriga o segredo dos amantes.

Dorothee Rüdiger é psicanalista e doutora em Direito pela Universidade de São Paulo

Data de publicação: 15/03/2018