Jacques Lacan e a Psicanálise do Século XXI 14/08/2013

Na quinta-feira, 27 de agosto de 2009, Jorge Forbes encerrou o módulo – A PSICANÁLISE DO SÉCULO XXI – Lacan para desesperados da crise – que dirige na cpflcultura / TV Cultura com a conferência JACQUES LACAN E A PSICANÁLISE DO SÉCULO XXI.

Em decorrência das mudanças do século XXI, as pessoas se perguntam se a psicanálise deste século não deve ser diferente da psicanálise do século passado. A conferência foi uma resposta à provocação : – Como Jacques Lacan poderia se posicionar frente aos problemas e as crises do mundo hoje?

Jorge Forbes apresentou um trabalho magnífico conceituando todo o ensino de Lacan e seus dois momentos : a primeira e a segunda clínica de Jacques Lacan.

A primeira clínica – marca o momento de entrada de Lacan na psicanálise – vai de 1953 a 1970. Uma clínica pertinente ao século XX, que consagrou Lacan como aquele que trouxe a linguística para a psicanálise. Até então, o analista pós-freudiano preenchia o silêncio do analisando ou devolvia a ele o que havia dito, de uma forma mais palatável. O analista fazia uma certa maternagem em relação ao seu paciente.

Lacan devolve a virulência da psicanálise à época de Freud.

Forbes conta como Freud, a partir de um livro muito caro a ele, que leu aos 14 anos ” Como se tornar um escritor original em três dias”, de Ludwig Borne (Baruch Lob) e de Anna Ó, paciente de Breuer – que queria falar sem ser interrompida, queria limpar sua chaminé, fazendo sua talking cure – criou o método da associação livre.

Lacan se vale da obra de Ferdinand de Saussure para fazer o mundo perceber a instância do significante no inconsciente. Os analistas deviam repetir de certa forma aquilo que Anna Ó havia descoberto – que o saber não estava nem com o
analista ou o médico, nem com o paciente, mas na associação livre, numa instância que se dá nesse encontro. A partir daí, a questão de colocar alguém em análise é a de possibilitar a saída da cena imediata – ego a ego (eu e você) – para outra cena, um outro lugar, onde aquilo que é dito ganha um sentido novo que ultrapassa aqueles dois que estão conversando. E porque tenta-se ultrapassar o eu e o você é que convida-se uma pessoa a deitar no divã – um instrumento técnico facilitador, não obrigatório – e iniciar uma análise.

Na primeira clínica não é o analista, nem é o analisando, mas sim o Complexo de Édipo que vai dar sentido ao mundo.

Neuroses, psicoses e perversões são formas da pessoa criar uma ligação com aquilo que estamos para todo e sempre desligados – o mundo. Entre este eu e o mundo existe sempre uma discordância, que não se resolve mesmo que eu modifique meu mundo. Já dizia o poeta: Mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não uma solução. (DRUMMOND)

O Complexo de Édipo, que durou 100 anos, criado por Freud, foi possível porque a sociedade era vertical. Funcionou como uma vacina; pegou bem. Hoje a sociedade não é mais assim e o Complexo de Édipo não funciona como antes.

A segunda clínica de Lacan – menos conhecida e menos difundida – vai de 1970 a 1981. Um Lacan com 70 anos de idade, apressado, que sabia não ter espaço para rever todo seu ensino, nos deixa essa segunda clínica incompleta como um plano arquitetônico (Forbes faz menção à catedral de Gaudi), para que seus alunos continuem a desenvolvê-la.

Jorge Forbes tem se dedicado a esse projeto de Lacan por entender que essa segunda clínica é a que responde ao homem de hoje. A partir de 1970 há uma mudança na psicanálise – saímos do Freud explica e passamos para Freud implica.

A psicanálise não dá uma visão de mundo, mas põe em questão todas as visões do mundo. Ela diz de outro tipo de felicidade, uma felicidade que a pessoa não pode explicar, que não é uma verdade provada, mas é uma verdade mentirosa. A felicidade do acaso, não a felicidade por merecimento.

Lacan fala de outra clínica do sujeito do inconsciente, que não passa pela palavra. A psicanálise, clínica da palavra, passa a tratar de algo que passa fora da palavra. Não tem mais aquela coisa da pessoa ficar se perguntando o que há por trás do que ela está dizendo, mas sim, saber que não há nada além daquilo, não há nada mais que ela possa nomear, ela pode até inventar.

No final de análise, na segunda clínica de Lacan, há o que chamamos de desabonamento do inconsciente – não há mais essa descarga de irresponsabilidade. A pessoa se dá conta de algo duro – é um sintoma, mas não o sintoma inicial, que a pessoa trouxe para a análise, esse sintoma decifrável – mas um sintoma indecifrável, que não será mais transformado: a pessoa descobre que ela é o seu sintoma. É a última formulação de Lacan sobre o que é o final de análise – é a pessoa se dar conta de sua existência como um sintoma não decifrável. Como lidar com isso?
– Inventando algo
– Responsabilizando-se por essa invenção e fazendo-a passar no mundo.

É um duplo movimento necessário à análise: invenção e responsabilidade.

É na segunda clínica de Lacan que encontramos respostas para os laços sociais tocados pelo real:

Família – um amor sem conversa.
Educação – não se traduz informação em conhecimento sem responsabilidade; precisamos legitimar a informação.
Amor – era justificado, agora é sem justificativa. O amor era em nome de; hoje é um amor direto, sem intermediários.
Comércio – antes vendia-se objetos; agora o produto é uma experiência de cultura.
Empresa – a gestão é horizontal; o líder tem características opostas às de ontem.
Política – Brasília não é nosso pai; não estamos numa ordenação edípica. Estamos num momento de passagem; será necessário uma nova organização da política.

Para concluir: a qualidade de vida saiu das mãos de Aristóteles, de Nietzsche e passou a manuais de auto-ajuda. Um disfarce de vida nua, uma forma moralista menor que gera alguns desastres. É totalmente diferente de uma vida qualificada.

Sinopse de Teresa Genesini

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