Ponto de Vergonha 22/06/2017

Por Helainy Andrade

Notas a partir do comentário de Jorge Forbes num atendimento de paciente na Clínica de Psicanálise do Centro de Estudos do Genoma Humano na USP, dirigido por Dr. Jorge Forbes e Dra. Mayana Zatz

Não somos moralistas. Não é à moral que servimos, mas à nossa satisfação. 

O que nos dirige é a busca de satisfação. A satisfação que encontramos no coração que dispara e aquece todo o corpo daquele que pensa no seu amor. Mas não só. Também a satisfação que uma mãe encontra em lembrar-se a si mesma, todos os dias, que seu filho recebeu o diagnóstico de uma doença progressiva e irreversível. Ela faz com que esse problema reapareça todos os dias como se fosse novo. Ela se dá a mesma má notícia todos os dias. Quem não conhece alguém em situação parecida? Quem nunca se viu embaraçado em um problema, sem achar saída, mesmo que lhe apontem? Se fôssemos moralistas, a moral nem precisaria existir, faríamos o que é bom e não ficaríamos no que faz mal. Só que não é assim. Ficamos parados no que nos faz mal. Isso é esquisito. Essa esquisitice é singular e exatamente por isso nos envergonha. Para tocar no ponto de vergonha de uma pessoa, o analista vai atrás de sua singularidade. Uma pessoa se vale de uma análise quando ela se implica. E ela se implica quando o analista toca em seu modo singular de obter satisfação, a que Lacan deu o nome de gozo. E é disso que o analista tem de querer saber. Mas as perguntas sobre o gozo são sempre assustadoras. Um exemplo “É legal brigar com sua mãe?” Quando lhe pedem para atender a um menino que está brigando com a mãe, é desse gosto que o analista quer saber. Enquanto que o médico, o professor, ou qualquer outro diria não brigue com sua mãe, respeite-a. Por isso Lacan dizia que numa análise quem resiste é o analista e não o paciente. E se resiste, é porque tem horror de seu ato já que com ele descobre o gozo que estava recoberto. O analista é o que vai mais além e olha o gozo, e tem que ajudar o paciente a ver esse gozo. Isso pode abrir para a pessoa a possibilidade de sair da tragédia e encontrar outras formas de satisfação que não lhe causem sofrimento, se ela assim o quiser.

Helainy Andrade é psicanalista em Varginha-MG e monitora do curso online do Instituto da Psicanálise Lacaniana – IPLA-SP.

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