É posivel anticipar as coisas?

É possível antecipar as coisas? 16/07/2019

Camilo E. Ramírez

… pienso que un psicoanalista sólo tiene derecho a sacar una ventaja de su posición, aunque ésta por tanto le sea reconocida como tal: la de recordar con Freud, que en su materia, el artista siempre le lleva la delantera, y que no tiene por qué hacer de psicólogo donde el artista le desbroza el camino.

Jacques Lacan

A psicanálise, como as artes, não resolvem de uma só vez os impasses da vida, do vazio, do amor, do real, mas custodiam seu segredo, seu mistério, seu impossível: a verdade humana não é jamais uma teoria, um número, um conceito, uma tabela, uma receita, mas uma história do singular, daquele que sofre, daquilo que não faz sentido. “O segredo da psicanálise é que não há psicogênese” (Lacan)[i]

Além do custodiar (celebrarem) seu segredo, a psicanálise e as artes permitem a construção (amplificação) de novas possibilidades de resposta diante das múltiplas dificuldades da vida.

O presente artigo deriva de um estudo crítico e comparativo[ii] sobre um assunto fundamental na educação: as respostas diante das dificuldades e dos sintomas que acontecem nas escolas, como a violência e os assassinatos massivos, especificamente. E como as artes -principalmente o cinema – e a psicanálise, podem oferecer outras formas de savoir-faire diante dos impasses e mal-estares que acontecem nas escolas.

A ideia do trabalho surgiu de uma questão que nós achamos fundamental: a partir de um relacionamento não somente geográfico, mas ideológico entre os Estados Unidos e o México (especialmente o norte) assim como outros países da América Latina e do mundo, além do tocante à economia, o American way of life, os modelos e as lógicas educativas são frequentemente importados. Por isso achamos de vital importância fazer uma revisão dos documentos oficiais que tinham tentado trabalhar a problemática da violência nas escolas, por serem eles uma tentativa de explicação e resposta do governo americano à violência que acontece nelas. A partir das pesquisas e debates foram desenvolvidos documentos oficiais e manuais para professores, psicólogos e pais de família, com dois pontos básicos: O que ver? E o que fazer? Esses manuais, marcados por uma concepção do humano, da violência e da escola, apresentam certas características, que do nosso ponto de vista, estão longe de analisar a complexidade do que acontece, além de produzir, paradoxalmente, novos efeitos e sintomas na vida escolar.

Os documentos a que estamos nos referindo são aqueles desenvolvidos entre 1998 a 2009. Ou seja, os elaborados (inspirados) a partir dos acontecimentos de Jonesboro (11 agosto 1984) a Virginia Tech (16 abril 2007) [iii].

O que encontramos?

  1. Os documentos oficiais derivados das pesquisas (educativas, criminológicas, psiquiátricas, psicológicas, policiais e legais) oferecem uma explicação geral da violência: A violência é um fenômeno multifatorial, ou seja, que tem muitas variáveis implicadas (socialmente, familiarmente, psicologicamente, neurologicamente) [iv] mas ninguém ao final do dia sabe o que aconteceu a partir dos fatores de cada campo; a violência na escola ocorre devido a uma perda dos bons comportamentos, e nesse sentido é um problema moral; a violência é uma consequência dos comportamentos psicopatológicos; a violência é causada por impulsos não controlados devido a uma falha em alguns processos neurofisiológicos; a violência é consumo de sustâncias ilegais e cultura violenta; violência é acesso fácil à compra de armas. São tentativas de listar as causas e justificativas mais comuns.
  • A violência é uma coisa que surge no âmbito social mais amplo e depois “vai se meter nas escolas; não é um sintoma em relação ao contexto onde ela se apresenta.
  • As estratégias desenvolvidas: uma vez estabelecidas as variáveis (multifatoriais) associadas à violência nas escolas (early warning signs/sinais de aviso antecipado) é necessário localizá-las nos alunos para poder medi-las e assim controlá-las, como se fosse um processo linear de produção industrial. Na sequência há uma operacionalização (definição) daquilo que representa perigo, avaliação mediante instrumentos e escalas psicológicas, controle e monitoramento permanente desses fatores de risco, articulado com estratégias policiais. “Depois do tiroteio na Columbine High School, o estado do Colorado decidiu instalar uma linha telefônica direta entre cada sala de aula com a delegacia mais próxima. Onde a autoridade entra em colapso, o poder armado assume o relevo”.[v](Paul Verhaeghe)
  • Os modelos e manuais desenvolvidos a partir das pesquisas das dependências e secretarias do estado, fornecem ideias de vigilância e controle como uma única forma de trabalho e resposta diante a violência nas escolas, além de fazer uma criminalização dos alunos, apontando os potenciais criminosos: “Seu companheiro pode ser o seguinte assassino de escola” pela simples razão de ter alguns dos traços (comportamento, roupas, classificações) estabelecidos previamente como fatores de risco, preditores e detonantes da violência na escola.
  • Os manuais para funcionários e professores, além dos esforços preventivos criados a partir dos documentos oficiais, possuem a estrutura da antecipação: eles produzem exatamente aquilo que estão tentando evitar. Esses manuais estabelecem certas relações causais baseadas nas pessoas suspeitas, e consideram culpados outros, talvez inocentes, pela simples presença neles de um ou outro traço de personalidade duvidosa (early warning signs/sinais de aviso antecipado) as chamadas também early threat signs.[vi]

A ciência tem como ferramenta de pesquisa o método científico, que obedece a regras que, a priori, regulam tanto o processo de pesquisa, observação, quanto o processamento e apresentação dos dados, a fim de chegar a uma suposta noção geral com a qual explicam os fenômenos e objetos de estudo. Do princípio ao fim desse processo, o caso singular é colocado fora do contexto onde acontecem as experiências, o que impede que alguma coisa da ordem do singular possa ser reconhecida e trabalhada. Isso é precisamente o contrário do que as artes e a psicanálise trabalham: o singular. 

Como já foi mencionado, no caso de assassinatos em massa em instituições educativas, as pesquisas realizadas por meio dessa metodologia quantificadora oferecem explicações igualmente gerais sobre as causas ou variáveis associadas a esses eventos, tais como: sinais de alerta antecipada, supostos traços presentes nos agressores, características que estão presentes de maneira semelhante em indivíduos considerados “normais” e não perigosos. Quer dizer, fazem dos traços um elemento preditivo e causal, etiológico. Já que esse exercício metodológico consiste em passar das experiências sempre mutáveis e diferentes para dados únicos, eles são apenas tipificados e classificados como traços de personalidade e comportamento, para serem usados nas tentativas de monitorar, ainda predizer, sem poder ir mais adiante no estudo de tais casos, em sua singularidade.

São nesse contexto que as artes e a psicanálise aportam outras perspectivas do trabalho: se a verdade humana não é jamais uma teoria, um número, um conceito, uma tabela, uma receita, mas uma história do singular, aquilo que não faz sentido, então: O que as artes – especificamente neste estudo, o cinema[vii]– e a psicanálise podem aportar ao campo da educação sobre os mal-estares nas escolas, sobre a violência? Foi nossa pergunta bússola.

Por sua parte as artes e a psicanálise operam fora da uma concepção única do mundo e dos fenômenos, custodiando um segredo – a impossibilidade de uma explicação geral sobre as coisas chamadas de humanas, a quebra das relações causais entre um traço e uma conduta, como elementos preditores e a amplificação da respostas diante daquilo que acontece, mostrando uma coisa simples, mas pouco contemplada – que a vigilância e o controle produzem exatamente o que querem evitar. A esse respeito, o cineasta Gus Van Sant, na apresentação do seu filme Elephant (EUA; 2007) diz:

Eu queria captar a atmosfera daquela época (quando aconteceu o Columbine). Para nós, enquanto fazemos o filme […] não queremos explicar nada. Pois, cada vez que você explica uma coisa, múltiplas novas possibilidades de explicações aparecem, produzindo confusão. Por outro lado, há também o fato de encontrar uma explicação para algo que não necessariamente tem. (Gus Van Sant, 2003)

Conclusão

A função e os aportes no âmbito educativo – tanto das artes como da psicanálise – é de reintroduzir a singularidade, mostrar (monstração – diria Lacan) aquilo que não é acessível às metodologias positivistas, aquilo que não pode ser descrito nos modelos psicológicos gerais sobre a violência. Ou seja, trabalhar no contesto de um midi-dir de la verité: a radical diferença de um sujeito, de um ato, seu sentido e aspecto singular.

Esses métodos baseados em testes, em check-lists, desenvolvidos pelas instâncias oficiais do governo americano e colocados em prática nas escolas, através da distribuição de manuais aos professores e equipe escolar, são ineficazes. Produzem um ambiente pior, mais vulnerável à violência, em que inocentes podem ser considerados suspeitos em potencial; em vez de reduzir a violência produz mais violência.

Uma mudança do laço social entre alunos e equipe escolar, sem o estigma da vigilância, e com um novo olhar fora da concepção da criminologia e da psicologia positivista seria um caminho possível. Além de oferecer alternativas de lidar com aquele estranho presente em cada um de nós, sem necessariamente transformá-lo em sinais de perigo e elemento preditor da violência, como isso poderia ser trabalhado por professores e alunos nas escolas, de formas múltiplas e criativas?  Penso que as artes e a psicanálise teriam muito a oferecer nesse sentido.

Camilo E. Ramírez é psicanalista no México. Professor na Faculdade de Psicologia da Universidad Autónoma de Nuevo León (UANL) e consultor em Escolas e Empresas. contacto@camiloramirez.com.mx


[i]Lacan, Jacques (1955) O seminário. Livro III. As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988. p. 16.

[ii] Ramírez, Camilo. Asesinatos masivos en instituciones educativas en EUA: un análisis crítico de los documentos de la investigación oficial. Tesis de doctorado en artes y humanidades. Centro de Estudios Multidisciplinario en Artes y Humanidades (CICAHM) Monterrey Nuevo León, México, 2017.

[iii] O’Toole, M. E. (1999) The School Shooter: a threat assessment perspective. Critical Incident Response Group (CIRG) National Center for the Analysis of Violent Crime (NCAVC) FBI Academy. Dwyer, K. and Osher, D. (2000). Safeguarding Our Children: An Action Guide. Washington, D.C.: U.S. Departments of Education and Justice, American Institutes for Research. Erickson, William H., Chairman (2001) The Report of Governor Bill Owens’ Columbine Review Commission. United States Secret Service y Department of Education. (2002) The Final report and Findings of the safe school initiative: implication of the prevention of school attacks in the United States, Washington, D.C. Noonan, J.H.; Vavra, M.C. (2007) Crime in School and Colleges: A study of offenders and Arrestees Reported via National Incident- Based Reporting System. United States Department of Justice Federal Bureau of Investigation Criminal Justice Information Ser-vices Division; Timothy M. Kaine (2007) Report of the Virginia Tech Review

[iv]Jacques Lacan dizia que de certa forma todos os advérbios mentem (1ª aula) In. Lacan, Jacques (1975-1976). O seminário. Livro XXIII. O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007

[v]Verhaeghe, Paul. (2001). El amor en tiempos de la soledad, tres ensayos sobre el deseo y la pulsión.(2a edición en español ed.). (V. Gallo, Trad.) Buenos Aires, Argentina: Paidós. p.88(Traduçãolivre)

[vi] Parece que é considerado equivalente tratar cedo (totreat) com ficar assustado cedo, em face de ameaça (tothreat)

[vii] Para este estudo foram utilizados os seguintes filmes: Duck! The Carbine High Massacre (EUA; 1999) William Hellfire y Joe Smack; Bang Bang! You´re dead (EUA, 2002) Guy Ferland; Elephant (EUA; 2003) de Gus Van Sant; Dark Matter (EUA, 2007) de Shi-Zheng Chen; Bowling for Columbine (EUA, 2002) Michel Moore. The pervert´s guide to cinema (UK, Netherlands, Australia, 2006) Sophie Fineenes