Breve espaço e solvitur ambulando 16/07/2019

Caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar
Ao andar se faz caminho
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se há de voltar a pisar

Antonio Machado

Em seu texto Sobre a transitoriedade (1916 [1915])
Sigmund Freud dialoga com um jovem poeta enquanto caminham pela
montanha; ele tinha pedido análise a Freud, mas nesse
tempo o pai da psicanálise não tinha tempo em Viena, então resolveu a
questão fazendo a análise em suas férias, em passeios pela manhã.

Ao contemplar a beleza das obras da natureza, o poeta denuncia ao mesmo
tempo a grandeza e a fragilidade da natureza, desejando que fosse de outra
forma. Freud comenta:

O poeta
admirava a beleza do cenário à nossa volta, mas não extraía disso qualquer
alegria. Perturbava-o o pensamento de que toda aquela beleza estava fadada
à extinção […] Tudo aquilo que, em outra circunstância, ele teria amado e
admirado, pareceu-lhe despojado de seu valor por estar fadado à transitoriedade
(Freud, 1916 [1915])[1]

Freud argumenta que a transitoriedade em nada diminui o mais sublime da
natureza, ao contrário, a amplifica. Mas, a dificuldade do poeta fez Freud se
perguntar: Por que o poeta não pode desfrutar daquilo que ainda está vivo diante
dele?

O jovem poeta nos faz lembrar um mecanismo muito
usado: uma pessoa que toma consciência da sua condição humana
(ser consciente da própria morte, do tempo de vida, de sua
finitude necessária). E para proteger-se disso, ele renuncia ao momento
presente, atirando-se a certo ponto futuro em que acreditaria mais
seguro, achando que fazendo isso (aumento da consciência pessimista-realista)
se tornaria imune ao sofrimento das peripécias e labirintos da
vida, ao risco.

Não é isso a mesma coisa que está envolvida em toda vida
humana? A questão da vida não é somente habitar um espaço que não
se reduza a um tempo, como experimentam os animais, mas, precisamente
a uma vida significativa, consciente e participativa, e não em piloto
automático, cheia ou de muito passado ou de uma invasão angustiante do futuro. E que
não é ruim por ser breve. Se nós amamos aquilo que já está marcado com a
morte (Quem me ungiu a morte nas plantas de meus pés no dia de meu nascimento?[2]
diz o poeta mexicano Jaime Sabines) então amemos sem garantias, sem esforços do
controle, incluindo o que não é calculado.

A ilusão de pensar que, se fosse
possível nomear perfeitamente a priori aquilo que produz medo, isso traria mais
segurança, é precisamente efeito da noção de regulação da vida, presente em
muitos âmbitos (política, família, escola, empresa, amor, etc).  É crer que tudo na vida pode ser operacionalizado
(reduzido a uma variável a ser medida) como se fosse uma linha de produção
industrial, onde tudo deve ser planejado, predeterminado. Sendo assim, as
surpresas e os riscos seriam calculados e reduzidos à sua mínima expressão para
garantir a qualidade do produto, para depois, paradoxalmente, perguntar-se:
Onde ficará a criatividade? Onde está o desejo? E ao final te propomos um curso
de criatividade e, cúmulo dos cúmulos, te ordenamos: Seja espontâneo!

Ao viver achando que tudo na vida pode ser nomeado, que isso poderia ter
algum efeito protetor, se faz como alguém que vai com medo a uma festa: fica
trêmulo, só olhando e criticando os demais, por acha-los ridículos, sem
participar da joia do encontro, Ele não participa, não se implica: “Nossa, do que me salvei! Salvei-me de
fazer o ridículo!

Como os humus/humanos (Lacan, 1967)[3]
podemos nomear a própria morte, corremos o risco de atraí-la, precipitá-la.  “…quem sabe finalmente o
nome da morte corre o risco de chama-la e ela escutar” (Forbes,
2012)[4]

Essa mesma fragilidade e finitude, faz com que possamos nomear coisas,
mas ao mesmo tempo desconhecendo muitas: amamos isso que se gera no encontro,
no acaso, mas paradoxalmente, desejamos que se repita uma e outra vez, sabendo
ou não, que essa pretensão burocrática-amorosa  pode amputar o amor, fazer
que se atente contra ele. O amor é, sobretudo, encontro, liberdade e
criatividade. Como pode então permanecer se estiver sujeito a fórmulas de
controle e vigilância?

O real do momento que sustenta a vida, sem lógica, sem nenhuma lei,
pode inquietar ao grau da gente renunciar ao seu movimento, querendo traduzi-lo
ao imperativo da rotina e do protocolo. Todo bom nadador de águas abertas sabe
que em caso de seu corpo seguir uma estratégia fixa, quadrada, forçada, vai
ficar pesado, torpe; ao contrário, se ele quer nadar no mar, seu corpo deve
tomar levemente o ritmo das correntes, deixar a onda o levar.

Já que a experiência do mar, como a vida, é a experiência da liberdade e
do singular: não importa quantas vezes seja observado, cada detalhe, cada dobra
é única e irrepetível. O horizonte se expande e não há um único ponto de
apoio, de referência, mas muitos. A “onda” leva, guia, ensina e orienta, mas também
pode angustiar, (como falou Nietzsche,[5]se
a pessoa sente saudade da terra diante do peso da liberdade, que sempre será
maior que do sacrifício e da submissão). E pode também ser mais divertida e criativa,
pois ela demanda um movimento inédito para cada um de nós.[6] O
ponto de menor padronização -fora da “caixa”- é o ponto de maior amplificação.

Essa invenção em Freud de fazer análise andando pelo campo, pela cidade,
ter seus amados cachorros no consultório durante as sessões, não só é coisa
esquisita de gênio.[7] A meu
ver, uma posição diante da vida marcada pela consequência do tempo, da
transitoriedade, respondendo ao inusitado com um ato criativo, diferente do
poeta queixando-se pela curta duração da natureza. Como falou com humor, mas
com clareza, a um outro paciente que queria pagar-lhe por adiantado algumas
sessões: Se eu morrer, você vai pedir à minha família seu dinheiro de volta.

Camilo E. Ramírez é
psicanalista no México. Professor na Faculdade de Psicologia da Universidad
Autónoma de Nuevo León (UANL) e consultor em Escolas e Empresas
. contacto@camiloramirez.com.mx

 


[1]Freud,
Sigmund(1916 [1915]) Sobre
transitoriedade In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas
de Sigmund Freud v. XIV.Rio de Janeiro: Imago, 1976. p. 186.
[2]
Sabines, Jaime (1972)
Poema de Doña Luz XXI. In. Antología poética. México: Fondo de Cultura
Económica, 1994.
[3]
Lacan, Jaques (1967) Otros escritos. Buenos Aires: Paidós, 2012.
[4]
Forbes, Jorge (2012) Café Filosófico: Velhice,
par que ter quero? Yotube: https://www.youtube.com/watch?v=B3IORTf-N_kAcesso setembro 2017.
[5]
Nietzsche,
Frederich (1888) A Gaia Ciência
[6]
Cf. Forbes, Jorge. Você sofre para não
sofrer: Desautorizando o sofrimento pret a porte Baueri: Manole, 2014.
[7]Cf. Roazen, Paul Cómo trabajaba Freud. Comentarios directos
de sus pacientes. Ediciones Paidos Ibérica, S.A. Buenos Aires, 1998.

 

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