A Sagração da Primavera

A Sagração da Primavera: século XX e a promessa de completude 16/07/2019

“No dia seguinte, o balé já não era clássico, a cidade já não cheirava a cavalo. Pelo túnel, o metrô. Pelo fio preto, a fala. Garotas trocavam o corpete pela máquina de escrever. Os quadros já eram Picasso. Os sonhos já eram interpretados”.  É assim que inicia “Nós que aqui estamos por vós esperamos” (1998), o filme de ficção documental de Marcelo Masagão.  O dia em questão é uma noite de maio de 1912, quando no Théâtre du Châtelet  de Paris se apresentou “L ‘aprés-midi d’un Faune”, de Nijinski, tido como o primeiro balé moderno. Inaugura-se então a modernidade.

Subintitulado “Uma Memória do breve século XX”, o filme narra sua história para além das datas do calendário. Este século XX de que estamos falando não inicia em primeiro de janeiro de 1901, nem vai até 31 de dezembro do ano 2000, mas sim o século XX que se precipita após as 3 feridas narcísicas da humanidade: Copérnico que nos disse que não somos o centro do universo, Darwin que nos mostrou como somos parte do reino animal, e Freud que nos fala que o “eu nem sequer é mestre em sua própria casa”. O século da modernidade.

São os anos em que as revoluções técnicas e culturais nos fizerem viver 5 séculos em um (o que parece pouco para hoje em que vivemos 5 séculos em segundos). Mas de todas as revoluções que poderiam desencarrilhar o filme, Masagão escolhe a arte, em específico o balé. A Tarde de Um Faunocolocou ângulos retos nas linhas alongadas do balé clássico, o que chocou muitos, mas emocionou em especial uma pessoa da plateia: Igor Stravinsky — que estava fazendo para a música o que Nijinski fez para a dança. E juntos eles estrearam no ano seguinte Le Sacre du Printemps

Nijinski, “L ‘aprés-midi d’un Faune”Stravinsky & Nijinski

Se A Tarde de Um Fauno causou estranheza, A Sagração da Primavera foi um dos maiores motins da história da música clássica, exigindo intervenção da polícia parisiense. Mesmo com a intervenção, a plateia enraivecida não cessou, muito menos os dançarinos e músicos, que completaram as apresentações sob vaias. A fenda havia sido aberta: não se volta atrás numa revolução.

A arte do século XX incessante e incansavelmente questionou a lógica das representações. Nada estava imune a questionamento, todo ícone era passível de ruptura: o que os nomeou de as vanguardas iconoclastas. Nas artes plásticas, em que a representação é imagética isto fica ainda mais evidente. A pintura levou séculos para desenvolver técnicas de melhor representar a realidade. Os renascentistas descobriram (ou inventaram?) a perspectiva e o jogo de luz para capturar o mundo de fora na tela. Séculos mais tarde os impressionistas sabiam que a cor não passa de raios de luz, e que o tempo também fluía pela realidade, e passaram a capturar o momento para dizer: eis o mundo como ele é assim e agora. As vanguardas radicalizaram este movimento, e o cubismo e o futurismo se propuseram a mostrar a realidade não do ponto de vista de um único espectador, mas como ela seria: a todo tempo e de todos os ângulos.

 
“A última ceia” Leonardo da Vinci
   
“Menina com bandolim” Picasso“Nu descendo a escada” Duchamp“Formas Únicas de Continuidade no Espaço” Boccioni

O século XX rompeu com ícones, mas sob as vaias criou também promessas de totalidades. Eles não queriam apenas derrubar catedrais, mas sabendo que as velhas igrejas não davam conta da experiência humana, queriam construir novas e mais perfeitas. A modernidade em cada ruptura traçava uma nova promessa de completude, uma maneira de enfim expressar o mundo e a experiência humana. 

A arte se criou sob manifestos, sobre a palavra ditada, sob o hino comum, sob (sim, ousadas e novas, porém sempre) fortes regras.  Mas uma vez iniciado este “comboio de corda que gira a entreter a razão” foi-se ainda mais além, e Malevich mostrou que se queremos tomar o mundo por coisa em si, a coisa da pintura é a tela, é o traço, é a tinta. Traços simples e cores primárias sobre tela, decupados cada vez em menores e menores signos, a tal ponto que qual seria o próximo passo? A tela pintada completa de preto? Ou a tela nua em branco?

 
“Esportistas”, Malevich
“Avião voando”, Malevich“Branco em branco”, Malevich

Foi o que fizemos. E lindamente. Dizer que a tela pintada de branco de Malevich é apenas uma tela em branco é ignorar a beleza na busca incessante de tentar dizer afinal o que é a pintura.

Mas “a final” mesmo, o mundo se mostrou sem fim, incompleto. Se não o fosse, após a tela branca todos pintores haveriam guardado seus pinceis e apenas contemplado a criação “com as vastas mãos abanando”. Mas não, a sede insaciável não secou, e seguimos perguntando “existirmos a que será que se destina?”. Nesse jogo de subtração, fica sempre um resto.

 Antes do século XX acabar nos calendários, o século XX acabou. “A Máquina do Mundo se fechou”, e com ela a promessa de completude. O mundo é incompleto – é o que diz hoje quem baixa a cabeça e diz o jargão “esse mundo está perdido”, assim como quem sabe que nesta equação inexata “a alegria é a prova dos 9”.

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Em 2018 o Balé da Cidade de São Paulo comemorou seus 50 anos com sua leitura do espetáculo A Sagração da Primavera. Com uma temporada também agora em abril de 2019, o balé claramente se atualiza — ainda bem, pois mais de um século depois, o que nos emociona não são os ângulos retos, mas sim esse relato. Ainda sim, na versão de hoje o coreógrafo Ismael Ivo teve a sensibilidade de dentre os gestos contemporâneos colocar menções às poses imortalizadas de Nijinski – pequenos signos que ficam na coreografia como chaves que nos transportam àquela noite parisiense que marcou a primavera de um novo tempo.

“A Sagração da Primavera”, Balé da Cidade de São Paulo

Quem assiste a essa obra entende que o fato de sabermos que não temos e não teremos a completude não nos impede em momento algum de nos emocionar com a promessa do século XX. Porque a beleza não está na realização da promessa, mas na promessa em si. A catedral da nossa Era não é um Duomo, e sim a catedral de Gaudí — para sempre interminável, e, portanto, sempre com algo por fazer.

E se é de palavras e promessas que estamos falando, no início do texto menti — o filme de Masagão não inicia com a citação que coloquei, e sim com a epígrafe: “O historiador é o rei, Freud a rainha”. E só quem não joga xadrez não vê o elogio à psicanálise. Fechou-se a Máquina do Mundo. Para além da modernidade, temos a lógica da incompletude, a lógica da arte, da psicanálise, do mundo sempre por fazer.

Letícia Genesini é escritora e produtora de conteúdo